Memórias fotográfica e videográfica constituem-se das interações entre os domínios mentais e visuais das imagens. Fotografias e filmes são ferramentas importantes no processo de educação podendo propiciar reflexões e inter-relações simbólicas.
A memória humana é estruturada de tal forma
que nós compreendemos e retemos bem melhor
tudo aquiloque esteja organizado de acordocom relações espaciais.
Pierre Lévy
Antes de abordar esses dois tipos de memórias, é importante fazer uma reflexão sobre dois tipos de domínios da imagem. Para a Professora Drª. Lucia Santaella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), os domínios da imagem podem ser divididos em visual e mental.
O primeiro é o domínio das imagens
como representações visuais: desenhos, pinturas, gravuras,
fotografias e as imagenscinematográficas, televisivas, holo e infográficas pertencem a esse domínio. Imagens, nesse sentido, são objetos materiais, signos que representam o nosso ambiente visual. O segundo é o domínio imaterial das imagens na nossa mente. Neste domínio, imagens aparecem como visões, fantasias, imaginações, esquemas, modelos ou, em geral, como representações mentais (1998, p. 15).
Assim, as imagens visuais são aquelas que se percebem através do sentido da visão. Por exemplo: quando se faz a leitura de imagens que ilustram uma revista, quando se recorda o passado ao ver as fotos do álbum de família ou ao assistir a um filme no cinema, o sujeito está a dialogar com imagens visuais. Através desses atos é possível conversar com o mundo, e assim constrói-se uma memória com base nessas imagens, pois como afirma o pesquisador Boris Kossoy, ao se referir às fotografias, “todos nós guardamos fatos de nossas experiências de vida: imagens-relicário que preservam cristalizadas nossas memórias” (2002, p. 136). Ao referir-se dessa forma, Kossoy lhes confere a propriedade de armazenar memórias, mas estas só têm valor se existirem na mente as lembranças dos fatos das experiências vividas. É aí que está o domínio das imagens mentais.
Mas, refletindo um pouco mais sobre as fotografias, elas são realmente possuidoras de um certo poder de eternizar e conservar a história. “As fotografias, em geral, sobrevivem após o desaparecimento físico do referente que as originou: são os elos documentais e afetivos que perpetuam a memória” (KOSSOY, 2002, p.139). No entanto, também se pode dizer que ao longo da vida de um sujeito, enquanto ele arquiva inúmeras imagens mentais, ele pode vir a perder, por extravio, tantas fotografias quantas imagens existentes em sua mente.
Todavia, a relação de ligação entre passado e presente, existente na fotografia, passa por uma relação de imagens visuais que, por sua vez, dispara uma reflexão que permite ao leitor das imagens fotográficas fazer relações emocionais e históricas do referente fotografado com sua bagagem mental. Essa evocação de lembranças forma um circuito de imagens que constituem a memória fotográfica, ou seja, informações internas e externas aos sujeitos que geram arquivos mnemônicos.
Após estas constatações, pode-se concluir que os domínios de imagem mental e visual formam um circuito inter-relacionado. Segundo Santaella,
Ambos os domínios da imagem não existem separados, pois estão inextricavelmente
ligados já na sua gênese. Não há imagens como representações visuais que não tenham surgido de imagens na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos visuais (1998, p. 15).
Estando agora a par desses dois domínios da imagem, façamos uma abordagem das memórias fotográficas e videográficas, partindo de uma análise na qual se estará englobando no termo videográfica toda linguagem que envolve uma seqüência de imagens que simulem movimento, como, por exemplo, o cinema.
Essas memórias são geradas a partir de referenciais visuais que são transportados para nossa mente, por meio de nossas percepções, formando uma memória composta de imagens. É nesse circuito de referenciais que essas duas linguagens artísticas (vídeo e fotografia) surgem com grande contribuição no processo de educação e construção do indivíduo. Através da arte e, principalmente, das duas linguagens citadas acima, “o leitor considera significativamente a sua própria memória de acontecimentos pessoais, relacionando aspectos do seu passado com detalhes fortuitamente vistos no trabalho de arte” (ROSSI, 2003, p. 57). Dessa forma, fica evidente que as artes visuais possibilitam um exercício de leitura estética que permite ao indivíduo evocar suas memórias mentais a partir das experiências com o mundo.
A relevância desta análise para a educação está em propiciar ao indivíduo-leitor uma visão mais integrada e crítica do mundo, pois quanto maior for seu contato com a arte e seu repertório de memória mental, mais reflexivo será, pois “a importância que têm os conhecimentos existentes para as novas aquisições deriva do papel fundamental que desempenham dentro da construção das representações e da idéia de que a aquisição passa, necessariamente, por estas representações” (FIALHO, 2001, p. 175).
Em meio a essas representações de mundo está a linguagem do vídeo, e com ele a memória videográfica. Um exemplo dessa memória é quando alguém, para descrever um fato ocorrido como, por exemplo, um déjà-vu1, utiliza alguma das seguintes expressões: “tive a impressão de já ter visto isso antes“ ou “acabou de passar um filme na minha cabeça”. Essas expressões exemplificam o domínio da imagem mental, em que um referencial externo provoca inconscientemente, através de sensações, a idéia de estar evocando uma situação já vivida.
A partir das considerações feitas até o presente momento, a seguir questionemos a respeito das duas memórias relatadas. Serão feitas análises comparativas entre a linguagem fotográfica e alguns filmes. A intenção é demonstrar a hibridez existente entre as linguagens de vídeo e fotografia e algumas formas de relações comparativas com nossas memórias.
Nosso arquivo mental se identifica com as fotografias, e muitas vezes nos utilizamos delas para voltar aos acontecimentos do passado. Elas funcionam como uma amarração com nossa própria história. Em relação a essas fotografias que constituem nossa memória, cabe citar aqui a professora Drª. Olga von Simson 2 :
a mais delicada das questões é a da memória. A fotografia que uma vez foi nomeada
como ‘o espelho com memória’ é de certo modo dada como seu sinônimo. Para tanto basta citar um trecho do filme Blade Runner3 onde, aspirando à condição humana, replicantes4 relatam suas lembranças implantadas, apoiadas em fotografias – também simulacros da realidade (1998, p. 22).
Podemos ser comparados aos replicantes, andróides rebelados, pois nesse quesito memória não somos tão diferentes. De certa maneira, apoiamos muitas das nossas histórias em fotografias, tanto mentais como matéricas. Quando convidamos alguém a olhar um álbum de família ou quando nós mesmos nos deparamos revivendo o passado ao olhar aquelas imagens imóveis, que passam a dar tanto movimento a nossa imaginação, percebe-se a importância daquelas imagens para a história particular e afetiva existente no interior de cada um de nós. Isso porque, como diz o sociólogo francês Edgar Morin,
A importância da fantasia e do imaginário no ser humano é inimaginável; dado que as vias de entrada e de saída do sistema neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam apenas 2% do conjunto, enquanto 98% se referem ao funcionamento interno, constitui-se um mundo psíquico relativamente
independente, em que fermentam necessidades, sonhos, desejos, idéias, imagens, fantasias, e este mundo infiltra-se em nossa visão ou concepção do mundo exterior (2000, p. 21).
Nosso imaginário, formulando uma fusão com nossas memórias, tem o poder de criar novas imagens mentais e assim acaba cogitando novos caminhos e soluções para os problemas cotidianos. Sem contar a função de projetar pensamentos que recriam a realidade. Com essa necessidade do homem de construir relações para firmar o conhecimento, torna-se extremamente confuso quando ocorre a falta de memória, seja por esquecimento ou por alguma patologia mental. Um exemplo disso pode ser vislumbrado a seguir, em relação ao filme Amnésia5.
Nesse filme, dirigido por Christopher Nolan, pode ser analisada uma forte relação da memória com a linguagem fotográfica. O personagem Leonard Shelby, representado pelo ator Guy Pearce, passa por um acidente, do qual resulta uma patologia que consiste na perda total de memória de todos os fatos ocorridos após o acidente. É como um efeito borracha, involuntário. Apenas alguns segundos após ter realizado algo, Leonard não lembra de absolutamente nada do que fez. Como artifício de lembrar desses atos e ações por ele praticadas, Leonard passa a fotografar e tatuar seu próprio corpo. A memória é o vínculo com o tempo, portanto os fatos (situações e pessoas) eram registrados em fotografias polaroid, e tidos, juntamente com algumas anotações, como documentos que comprovavam o fato real ocorrido no passado recente. O personagem, num determinado momento do filme, diz: “Como posso cicatrizar se eu não consigo sentir o tempo?”. Somente através da fotografia ele pode criar um simulacro da realidade, como já foi citado anteriormente em relação aos andróides replicantes do filme Blade Runner, no qual a fotografia construía a memória.
No circuito da memória nos deparamos com a possibilidade de recordar o passado como se estivesse passando filmes em nossa mente. Podemos comparar esse efeito de recordação mental através do método cinematográfico utilizado para evidenciar ao espectador as memórias dos personagens de um filme, os flash backs. O filósofo Gilles Deleuze descreve como se dá o processo de contato com um referencial que ele chama de imagem atual e as imagens-lembrança. “A relação da imagem atual com imagens-lembrança aparece no flash-back. Este é, precisamente, um circuito fechado que vai do presente ao passado, depois nos traz de volta ao presente” (DELEUZE, 1990, p. 63). Assim como nos filmes, recorremos constantemente aos flash-backs para retornarmos a situações passadas. Isso é de grande valia para repensar e construir o tempo presente.
Após essas análises, podemos refletir sobre uma das diferenças entre a fotografia e o vídeo. Nas imagens fotográficas, a representação – que, embora possa sugerir movimento, se encontra estática – possibilita ao espectador uma leitura que faz a imagem penetrar na mente e desencadear um processo de movimento do imaginário. De certa forma, essas imagens funcionam como um dispositivo que estimula a mente a sonhar, refletir, imaginar e produzir, a partir da rede de repertório simbólico interior (mental) e exterior (o ambiente), uma série de instigações que trazem à tona um movimento de pensamentos e discussões internas a cada indivíduo.
Já através das imagens em movimento (videográficas e cinematográficas), a tendência é de que o telespectador tenha outro tempo de fruição do referencial observado. Nessa situação, o indivíduo tem outra relação com a leitura das informações visuais. Existe nesse caso uma sucessão constante de imagens que impõe ao leitor uma análise intermitente do conteúdo observado. O tempo de fruição é diferente do ocorrido frente às imagens fotográficas. Somente após o término do material videográfico é que a mente passa a sintetizar o resultado das várias relações que foram sendo estabelecidas em função do material a que se assistiu e suas inter-relações com o conteúdo mental armazenado. É como, ao final de um filme, eleger para si uma cena de maior relevância – geralmente vinculada a um sentimento ou a alguma lembrança afetiva – ou ainda, ao sair do cinema, discutir a respeito do que achou da película, se gostou ou não e por que, fazendo uma leitura geral do filme, similar a sinopse.
Nesse ato de leitura, através dessas linguagens artísticas, evidenciamos a atuante importância das artes em nossa vida. Como observa a Professora Drª. Analice Pillar, “ao lermos uma obra de arte, estamos nos valendo de nossos conhecimentos, artísticos ou não, para dar significados à obra. A leitura só se processa no diálogo do leitor com a obra” (2003, p. 20). Portanto, apesar de algumas distinções entre as linguagens citadas, é indiscutível o fato de que as duas absorvem memórias, constroem conhecimento e também são absorvidas pela memória. As duas geram flash-backs. A fotografia e o vídeo são ferramentas extremamente eficientes para construção de um acervo de memória e influenciam na formação educacional dos indivíduos. Portanto, repensando através desses meios – tanto mentais quanto visuais –, podemos encontrar alguns caminhos e soluções para alcançar resultados no processo de educação.
Cláudio Tarouco de Azevedo
REFERÊNCIAS
DELEUZE, Gilles. Aimagem-tempo / cinema II. São Paulo: Brasiliense, 1990.
FIALHO, Francisco Antonio Pereira. Introdução às ciências da cognição. Florianópolis: Insular, 2001.
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editorial, 2002.
LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
PILLAR, Analice Dutra (org.). A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 2003.
ROSSI, Maria Helena Wagner. Imagens que falam: leitura da arte na escola. Porto Alegre: Mediação, 2003.
SAMAIN, Etienne. O fotográfico. São Paulo: Hucitec, 1998.
Amnésia. EUA, 2001. Direção: Christopher Nolan. Newmarket Capital Group / Summit Entertainment.Gênero: ficção. 1 DVD/NTSC, color, legendado. (120 min).
Blade Runner. EUA, 1982. Direção: Ridley Scott. Columbia TriStar / Warner Bros. Gênero: ficção. Fita de vídeo – VHS/NTSC, color, legendado. (118 min).
[1] A expressão déjà-vu vem do francês e pode ser traduzida literalmente como "já visto"; ela começou a ser usada tecnicamente no início do século XX para designar a estranha sensação de já ter visto ou vivido algo que, certamente, está acontecendo pela primeira vez. Dados disponíveis em: <http://educaterra.terra.com.br/sualingua/02/02_dejavu.htm>. Acesso em: 22 out. 2005.
[2] Olga Rodrigues de Moraes von Simson é professora doutora da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). Dados obtidos em:
[4] No filme Blade Runner, os replicantes (andróides) do modelo NEXUS 6 rebelam-se contra os humanos. Sua inteligência era superior à dos engenheiros genéticos que os produziram. Eles eram usados para operações de grande risco nas colônias planetárias. Possuíam emoções, experiências limitadas e vida pré-programada de aproximadamente quatro anos. Portanto, seus criadores passaram a trabalhar no intuito de fornecer um passado aos andróides e assim lhes dariam memórias. Eles poderiam construir pensamentos de acordo com um repertório mais condizente com o de um ser humano.
[5] Amnésia. EUA, 2001. Direção: Christopher Nolan. Dados obtidos em:
[*] Mestrando em Educação Ambiental - Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG, Rio Grande – RS. 2008 em andamento.Graduação em Artes Visuais – Licenciatura Plena - Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG, Rio Grande.