Formación y Transmisión: ¿qué nos enseñan los escritores y los poetas?
RESUMEN:
El trabajo destaca la importancia de la creación literaria en la formación permanente del analista. Con Freud, se trata de reconocer que la experiencia poética anticipa la invención del psicoanálisis; mientras con Lacan, dentro de la perspectiva de que el inconsciente es estructurado según las leyes del significante, se trata de relevar que es necesario savoir-faire con lalengua, rescatándola del olvido originario.
Formação e transmissão: o que nos ensinam escritores e poetas?
RESUMO
O trabalho destaca a importância da criação literária na formação permanente do analista. Com Freud, trata-se de reconhecer que a experiência poética antecipa a descoberta da psicanálise enquanto que com Lacan, a partir da perspectiva de que o inconsciente é estruturado segundo as leis do significante, trata-se de destacar que é necessário savoir-faire com lalíngua, resgatando-a do esquecimento originário.
Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra, a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez (LISPECTOR, 1964, p.16)
Era ainda adolescente, quando chegou às minhas mãos um livro de Clarice Lispector denominado A paixão segundo G.H. Na primeira folha do livro, uma frase já indicava o turbilhão que viria a seguir: eu ficariacontentese meulivrofosse lido apenas por pessoas de alma já formada(...)(LISPECTOR, 1964:5). Tal recomendação, longe de me desanimar, impulsionou-me mais ainda a realizar essa leitura, acreditando tratar-se de uma história sobre a paixão amorosa, naquele sentido que todo jovem, prioritariamente, se interessa. Mas, para minha surpresa e espanto, pouco a pouco, percebi tratar-se de outro tipo de paixão que nunca, até então, havia se explicitado para mim.
Lispector relata o encontro de uma mulher com o enigma da existência, encontro que é encenado quando esta se vê sozinha, num quarto vazio, diante de uma barata.
G.H., a única personagem desse misterioso livro, progressivamente se despe dos envoltórios pessoais, conduzindo o leitor a um processo inexorável de destituição subjetiva. Anuncia: perdi minha montagem humana(...)É tão difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar (...) eu nunca antes havia deixado me levar, a menos que soubesse para quê. Mas acabei por me defrontar com um grau de vida tão primeiro que estava próximo do inanimado(...)(LISPECTOR, 1964:8)
Cada página do livro é um verdadeiro mergulho no indizível, uma tentativa de encontro com uma origem, viagem angustiante do humano ao inumano. G.H. confessa(...) a escrita é uma tentativa de criaraquilo que me aconteceu...só porque viver não é relatável. Viver não é vivível (LISPECTOR, 1964:17).
Naquele momento, a maior parte do que li não fez, propriamente, sentido para mim. Teve, porém, o efeito de provocar uma espécie de sideração. Embalada no ritmo e, na melodia desses escritos fui, subitamente, conduzida a um outro território, tecido pela desconstrução de mim mesma.
Ao longo da leitura desse enigmático texto descobri uma outra paixão, aquela que conduz o sujeito ao encontro da própria matéria-prima do vir-a-ser. E foi essa descoberta que despertou a vocação, no sentido de um chamado, que me conduziu em direção à psicanálise.
Mas o que evocam os textos literários e o que d´isso nos reporta à psicanálise?
São diversas as indicações, na obra de Freud, de que o saber que ele nos comunica já estaria presente no dizer poético. Em vários momentos, não se furta a recorrer a algumas passagens de importantes obras literárias, especialmente aquelas vinculadas ao romantismo alemão, para expressar questões fundamentais da existência humana. Especialmente quando introduz as formações do inconsciente, o que ressalta é a capacidade dos poetas de evocar nos seus ouvintes o que denomina a mais profunda e eterna natureza do homem (FREUD, 1900:262). Essas indicações assumem toda a sua importância quando, em Aquestão da análise leiga (FREUD, 1926) destaca a literatura como uma exigência fundamental para a formação dos analistas e a universitas litterarum o lugar ideal para sua instituição.
O suíço Walter Muschg (apud CAMPOS), teórico da literatura, destaca a capacidade literária de Freud, cuja segurança rítmica e sonora se manifestam já nos títulos de seus trabalhos, criando uma verdadeira tensão antitética no leitor. É esta capacidade freudiana de se debruçar com ouvido sutilíssimo sobre a trama do som e do sentido, que Lacan resgatará, elevando-a a sua extrema potência.
Saliento, no artigo freudiano Escritores criativos e devaneios (1908[1907]), uma questão especialmente importante para se pensar o tema da formação e da transmissão na psicanálise. Trata-se da seguinte consideração: "Nós, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade (...)em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes."(FREUD,1908:149) Mais adiante expressa um verdadeiro anseio: Se ao menos pudéssemos descobrir em nós mesmos ou em nossos semelhantes uma atividade afim à criação literária!(...).Freud apresenta, dessa maneira, duas questões ligadas à criação poética: a da fonte criativa e a do despertar que a evocação poética pode promover.
Lacan, ao retomar o percurso freudiano, evidenciará nos textos canônicos sobre as formações do inconsciente, a primazia das leis da linguagem, fornecendo, assim, os instrumentos necessários para o avanço das interrogações freudianas.
Em fins da década de 50, uma das principais preocupações de Lacan é a questão da institucionalização da psicanálise e a constatação da perda do chamado movimento psicanalítico(LEITE, 2006). E é dentro de uma perspectiva de resgate da práxis original, em sua dependência às leis do significante, que Lacan recolocará, simultaneamente, a questão do ensino da psicanálise.
No texto Instância da letra (LACAN, 1957), ao estabelecer os fundamentos da linguagem, tendo em vista a perspectiva de um deslizamento incessante do significado sob o significante, define um programa, capaz de dar consistência ao campo psicanalítico. O que se revela é que, ao se servir da língua, o sujeito pode expressar algo completamente diferente do que ela diz, sustentando-se nas leis do significante, em suas duas vertentes: a metáfora e a metonímia. Como considera (...) basta escutar a poesia (...) para que nela se faça ouvir uma polifonia e para que o discurso revele alinhar-se nas diversas pautas de uma partitura.(LACAN, 1957:507).
É essa polifonia que revela o poeta brasileiro Ferreira Gullar, na poesia Barulho:
Todo poema é feito de ar apenas:
A mão do poetaNão rasga a madeira
Não fere
O metal
A pedra
Não tinge de azulOs dedos
Quando escreve manhã
Ou brisa
Ou blusa
De mulher
O poema
É sem matéria palpável
Tudo
O que há nele
É barulho
Quando rumoreja
Ao sopro da leitura
É de palavra em palavra, como afirma Lacan(1957-58),que a metonímia revela a insistência do desejo na cadeia significante, mesmo que seja apenas um modo de brigar, como cantou em letra Haroldo Barbosa2. Enquanto que a metáfora, ao substituir uma palavra por outra, é centelha criadora, que se coloca no ponto exato em que o sentido se produz no não-senso. Transpondo a barra que mantinha a separação entre significante e significado, a metáfora indica que é na substituição significante que se produz o engendramento do sentido, apontando a conaturalidade desse mecanismo com a criação poética. Trata-se de duas vertentes verdadeiramente articuladas, pois a metonímia é a estrutura fundamental em que se pode produzir esse algo novo e criativo que é a metáfora. Como afirma Lacan em 1958, no Seminário 6, a transmissão do termo e da função do desejo na poesia, é algo que reencontraremos après-coup, à medida que avança a investigação psicanalítica,pois trata-se do fato de que a situação do desejo está profundamente marcada, unida, a uma certa relação do sujeito ao significante.
Destaca-se especialmente, nesta instância, a importância de um ensino que não se distancie demais da fala, ou seja, da enunciação, ato que, em si mesmo, promoveria o efeito de formação que ele aí deseja colocar em relevo. Este efeito é a heteronomia radical, cuja hiância foi mostrada pela descoberta freudiana, ao colocar em destaque a surpresa,em sua dimensão fundamental, ou seja, como possibilidade de encontro com algo originário. Não estariam aqui os indícios de uma resposta à pergunta freudiana? Despertar para esse originário esquecido revelaria, então este ponto de junção, onde o significante tanto pode produzir novos sentidos, como conduzir ao lugar do total desaparecimento destes. É a musicalidade do poema que, ao colocar em cena as leis do significante retoma, simultaneamente, um para além, que comemora o renascimento do sujeito.
A partir da década de 70, Lacan colocará cada vez mais em destaque a presença do que é impossível de ser dito, considerando que a linguagem é apenas o que o discurso científico elabora para dar conta daquilo que denomina lalangue (ou lalíngua, como traduziuo poeta Haroldo de Campos).Idiomaterno. Lalação. Lallare, verbo latino onomatopédico, que significa cantar para fazer dormir as crianças. Essa palavra dá conta da ascendência da linguagem sobre o corpo. Coalescência da realidade sexual e da linguagem. Lalíngua nos "afecta" com efeitos que são afetos.
A linguagem, diz Lacan, é feito de lalíngua(...) Mas o inconsciente é um saber-fazer com lalíngua, resgatando-a do esquecimento originário. Quando se afirma que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, é porque os efeitos de lalíngua já estão lá e vão muito além de tudo o que é possível enunciar. É esse impossível que busca o poeta Manoel de Barros(2002) ao escrever seu Livro sobre Nada, quando afirma: O que não sei fazer desmancho em frases/Eu fiz o nada aparecer.(...)/Perder o nada é um empobrecimento. Ou ainda, no seu Livro das Ignorãças (2000), ao cantar os deslimites das palavras, Insetos cegam meu sol. Há um azul em abuso de beleza(...)Sou puxado por ventos e palavras.
O que se impõe é o fato de que é a divisão originária do sujeito que estabelece a força da lingüística, ou melhor, faz da lingüisteria, elocubração sobre lalíngua. O poeta se produz por ser (...) devorado pelos versos/vermes que encontram entre si seu arranjo, considera Lacan doze anos mais tarde, em Radiofonia. E afirma categórico: não basta enunciar que Freud se antecipa`a lingüística(...) mas o inconsciente é a própria condição da lingüística, porém não da linguagem, visto que a linguagem é a condição do inconsciente (LACAN, 1970:404).
A evocação poética produz efeitos de transmissão à medida que articula, simultaneamente, o mais íntimo e o mais exterior. A leitura de determinadas produções literárias tem, assim, tal efeito contagiante, que é como se escutássemos uma música e perdêssemos os limites entre o ouvir e serouvido.
O que se destaca, aqui, é que a transmissão da psicanálise não se confunde com o ensino da teoria psicanalítica. Ou seja, pode haver ensino da teoria sem transmissão da psicanálise. Para haver transmissão é preciso que se tome uma posição capaz de se deixar afetar pelo real da experiência. Ao afirmar que o ensino se faz um a um pelas vias da transferência de trabalho, Lacan ressalta a premência de uma transferência para com o trabalho do inconsciente. Para que isso se efetive é preciso a existência de um emissor, uma voz, em cuja ação de evocar encontre um receptor que a receba, tornando-se, ele próprio, invocante, como afirma Weill(1998).
Lacan, em 1975, ao indicar que nunca havia falado em formação do psicanalista, mas em formações do inconsciente, destaca que a Escola, em sua função de ensino e transmissão, deveria tornar-se, fundamentalmente, lócus de experimentação dos efeitos do significante e do que aí faz furo. Nesse sentido, retomar a voz dos escritores e poetas seria um caminho de reencontro com um ato inaugural tornando viva a experiência do inconsciente em seus limites com o impossível.
Como disse Jorge Luís Borges (1967-68), ao declamar em espanhol um soneto para uma platéia de língua inglesa, o sentido não importa – o que importa é uma certa música, um certo modo de dizer as coisas.
Referências Bibliográficas
. BARROS, Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro:Record, 2002
_________________ Livro das Ignorãças.Rio de Janeiro:Record, 2000.
. BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. São Paulo:Companhia das Letras, 2000.
. CAMPOS, Haroldo. O afreudisíaco LACAN na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan, a escritura). Salvador:Fundação Casa de Jorge Amado, 1990.
.FREUD, Sigmund. Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro;Imago, 1977.
. _______________(1900) Interpretação dos sonhos.
________________(1908[1907]) Escritores criativos e devaneios.
________________(1926) A questão da análise leiga.
.GULLAR, Ferreira. Toda poesia.:Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.
. LACAN, Jacques(1957)Instância da letra. In: Escritos.Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 1998.
_________________(1957-58)Seminário livro 5. Formações do inconsciente.Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 1999.
_________________(1958-59)Séminaire livre VI : Le désir et son interprétation.Paris Association Freudienne Internationale . (Publication hors commerce).
________________(1970) Radiofonia. In : Outros escritos. Rio de Janeiro :Jorge Zahar,2003.
________________ Sobre o passe. In: Lettres de L´École Freudienne, número 15, junho 1975, p.185-193.
.LEITE, Sonia Costa (2006) O psicanalista amador e os três desejos – Sobre o desejo do analista.In:Lacan e a formação do psicanalista.Org: JORGE, Marco Antonio Coutinho, Rio de Janeiro:Contracapa, 2006.
. LISPECTOR, Clarice (1964) A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1979.
. WEILL, Didier. Lacan e a clínica psicanalítica. Rio de Janeiro:Contracapa, 1998.
Sonia Leite
[1] Trabalho apresentado no III Congresso Internacional de Convergencia, que ocorreu em Paris em junho de 2007 e cujo tema foi Témoigner de l´experience de l´inconscient. [2] Jornalista, humorista e compositor brasileiro, autor de diversas composições, dentre elas De conversa em conversa, composta em 1947:”De conversa em conversa você vai arranjando um modo de brigar, de palavra em palavra você está querendo é nos separar(...)”
* Psicóloga. Psicanalista membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro. Responsável pela Secretaria de Cartéis. Doutora em Psicologia Clinica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, linha de pesquisa Psicanálise Teoria e Clínica. Psicanalista do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro. Professora e Supervisora de Psicanálise no Curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá.
Autora de vários artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras. Dentre eles: “O psicanalista amador e os três desejos – sobre o desejo do analista” e “O cartel e a Escola”, publicado no livro organizado por Marco Antonio Coutinho Jorge, Lacan e a formação do psicanalista (Rio de Janeiro, Contracapa, 2006) e “ O psicanalista, seu desejo e a instituição de saúde mental”, publicado no livro organizado por Laéria Fontenele, Psicanálise Teoria, Clínica e Conexões (Fortaleza, Edições Livro Técnico, 2006). E-mail: soniacleite@uol.com.br