Antropología Social e Historiografía de América del Sur. La presencia afro; Tango, fútbol rioplatense, conventillo y otras magias.

Marcel de Almeida Freitas *

 

Psikeba - Revista de psicoanalisis, arte y estudios culturales

 

Antropológía Social e Historiografía de América del Sur.
La presencia afro; Tango, fútbol rioplatense,conventillo y otras magias.

Resumen

Este trabajo busca traer un aspecto un tanto olvidado de la historia argentina y platense, o sea, la esclavitud africana en esa zona y sus influencias sobre la cultura local. Así, los negros empezaron a llegar allí en el Siglo XVII, siendo el ápice numérico en el Siglo XVIII. Usando estudios secundarios, desvelamos que hasta en Chile, Bolivia o Paraguay hubo esclavitud negra, hecho hoy rechazado por esas poblaciones. En el caso porteño, los negros eran comercializados por portugueses y brasileños, especialmente, considerando que en esa época Portugal tenía un importante entrepuesto comercial en ese coto, la colonia de Sacramento, hoy ciudad uruguaya. Así, no obstante actualmente no haya negros sctrictu sensu argentinos, rasgos físicos y, sobre todo, culturales son fácilmente encontrados en ese pueblo.

Antropologia Social e Historiografia Sul Americana.
A Presença Africana: Tango, Futebol, Cortiços e outros mistérios

Introdução

Esse trabalho nasceu de inquietações, algumas de cunho acadêmico outras de caráter subjetivo. Do ponto de vista acadêmico, durante a pesquisa de Mestrado sobre o futebol, passei a questionar se, realmente, o sucesso do futebol no Brasil se devia apenas à influência dos povos negros. Tais digressões surgiram após tomar contato com a teoria psicanalítica a respeito do narcisismo fálico, ou seja, culturas como a italiana ou a argentina, por exemplo, praticamente sem influência cultural africana, são apaixonadas pelo referido esporte e ‘machistas’ tanto quanto a brasileira. Assim, buscando informações sobre a presença da cultura negra na Argentina, descobri que tal participação foi maior do que se imagina no senso comum, inclusive estendendo-se até o norte do Chile e sul da Bolívia, mas que, todavia, não se comparou à presença maciça e marcante dos africanos no Brasil.

Desse modo, a partir dessa indagação, cheguei a duas colocações informadas pelas fontes secundárias que seguem: 1- realmente meu primeiro pressuposto estava correto, pois os italianos e argentinos, por exemplo, são apaixonados pelo futebol também em função do investimento afetivo-libidinal que dedicam à auto-imagem masculina que constroem de si mesmos, imagem cujos elementos são fornecidos pela cultura (violência, sexualidade aflorada, repulsa a passividade sexual, sucesso profissional, etc.). Logo, 2- o narcisismo fálico, também forte no Brasil, nos chegou pela matriz européia, mais especificamente da cultura mediterrânea, não através dos povos iorubá ou banto. Esse aspecto não será tratado aqui.

Minha outra indagação se mostrou oposta ao que a sociedade brasileira percebe em relação à sociedade argentina: houve considerável escravidão africana naquele país e para um olhar detalhado a partir da Antropologia Física, se notam traços faciais, cabelos crespos e peles mais escuras que as de origem indígena entre os argentinos, de forma rara, mas ainda existentes. O que me chamou a atenção para realizar esse texto foi que os meios de comunicação, o povo argentino, sobretudo os portenhos, e até os meios científicos ocultam e desconversam sobre o tema ‘negros na Argentina’. Assim, tal como aconteceu com a homossexualidade no futebol, o interdito aguçou minhas dúvidas, comprovando aquilo que Freud afirma sobre o silenciamento: ele não esconde, mas sinaliza o caminho que leva ao escondido.

Um pouco da história argentina e platina

A seguir serão relatados sumariamente alguns eventos significativos da história argentina, que por sua vez estão interligados à história da região do Prata desde a época da colonização espanhola. É mister sublinhar que os livros didáticos oficiais brasileiros não fazem menção à heterogeneidade da formação do povo argentino, explanando somente que sua população é predominantemente branca de origem italiana e espanhola, essa origem perfazendo 97% da população. Indígenas e mestiços estão colocados na mesma cifra de 3%, subentendendo-se que esses últimos são frutos do cruzamento entre nativos e europeus exclusivamente. Não há referência às comunidades chinesa e coreana que, desde os anos 1980, vem crescendo, nem aos argentinos pardos ou mulatos.

 

 

Os livros escolares, através de um meta-discurso, ainda deixam implícito que, em função de tal origem européia, a Argentina é um dos países mais dinâmicos, europeizados e ‘adiantados’ da América Latina. Logo, não somente na historiografia nacional daquele país, como assinalou Liboreiro (2001), mas também na produção didática histórica brasileira, o racismo e o classismo velados se fazem presentes. Antes de 15361, conforme Ibañez (1961), na desembocadura do Rio da Prata habitavam várias tribos indígenas que fugiam, para essas zonas pantanosas e de difícil acesso, das conquistas e dominações Incas. Tal região, assim como todo o Cone Sul do império espanhol, esteve relativamente abandonada em detrimento do México e do Peru porque esses últimos lugares, produtores de ouro e de prata, tomavam todas as atenções e investimentos da Coroa.

Somente em 1776 a Espanha criou o Vice Reino do Prata porque as ameaças de invasão portuguesa e inglesa estavam cada vez mais proeminentes. Esse comando abrangia desde Assunção, passando pelo sul da Bolívia, indo até o Uruguai e Patagônia. O processo de Independência argentiono (finalizado em 1816) foi resultado da expansão liberal, tanto no plano econômico (Revolução Industrial na Inglaterra), quanto político (Revolução Francesa). Ainda em 1795 a aliança da Espanha com a França contribuiu indiretamente para o processo de emancipação em relação à Metrópole, visto que a França, tradicional rival da Inglaterra, ‘solicitou’ que a Espanha fechasse seus portos aos ingleses.

Portanto, um dos efeitos desse conflito foi a tentativa de ocupação, por parte da esquadra britânica, de toda as imediações do Rio da Prata. Paralelamente a Inglaterra aumentava o contrabando nessa zona, comércio ilegal que incluía grande número de escravos africanos. A região de Colônia do Sacramento, domínio português, também foi alvo de ataque. A expulsão dos ingleses de Buenos Aires se deveu ao francês Santiago de Liniers, que organizou a retomada a partir de Montevidéu, já que a bacia platina do lado argentino se encontrava sitiada. Finalmente foram expulsos em 1807, após alguns acordos interessantes à Coroa britânica.

A Revolução de Maio que definitivamente libertou o país do jugo espanhol, foi o ponto de partida para uma série de outros processos de independência no continente sul-americano. Nessa época imaginou-se a possibilidade de se criar uma monarquia hispânica na América, ficando o trono com Carlota Joaquina, então vivendo no Brasil, que teria como capital a cidade mais próxima dos moldes europeus, Buenos Aires. Esses fatos levaram à separação do Cabildo de Montevidéu, que evoluiu até o surgimento de um país independente do outro lado do Rio, a República Oriental do Uruguai, mas que, em seguida, cairia sob o controle brasileiro como Província Cisplatina em 1817 (domínio que durou até 1828).

Após esse momento, outros acontecimentos importantes da história argentina foram a Ditatura de Rosas (governo autoritário comandado por Juan Manuel de Rosas entre 1835 e 1852), o apaziguamento político republicano sob o governo de Bartolomé Mitre (iniciado em 1862), a Guerra do Paraguai (1864 a 1870) e o populismo demagógico de Juan e Eva Perón durante a década de 1940 que, em troca do suporte político das massas, atendia as demandas populares quase que maternalmente. Entre os anos de 1976 e 1982 a Argentina viveu sob o jugo da ditadura militar, situação semelhante à vivida pelo Brasil no mesmo período (1973-1984).

Política e sociedade na bacia platina no século XVIII

Por essa época a região platina apresentava como foco de irradiação as cidades de Buenos Aires, colônia espanhola, e de Sacramento, possessão portuguesa. Essa última cidade, que hoje pertence ao Uruguai e é conhecida turisticamente apenas como Colônia, na primeira metade do século XVIII era um pródigo centro comercial. A cultura da região materializava uma realidade de fronteiras múltiplas, onde conviviam espanhóis, portugueses, europeus de diferentes etnias, mas predominando os ingleses, indígenas de várias tribos e, povo paulatinamente esquecido pelas historiografias oficiais, escravos negros.

Assim, os vínculos sociais, políticos, culturais e comerciais entre Buenos Aires, Colônia e Rio de Janeiro eram muitos e sólidos. Nesse momento a cidade do Rio de Janeiro ocupava importância como um dos principais entrepostos comerciais do Atlântico, visto que para aquelas paragens confluíam o ouro extraído das Gerais, negros vindos da África e até prata, que chegava da Bolívia pelo Sul do Brasil. A fundação da Colônia do Sacramento foi feita a partir do Rio de Janeiro em função desses interesses econômicos, e não a partir de São Paulo ou do Rio Grande do Sul, províncias geograficamente mais próximas, todavia, mais atrasadas economicamente. Portanto, (...) sua manutenção por quase cem anos (1680 a 1777) foi a materialização do processo de expansão territorial e comercial do Estado lusitano e das elites mercantis (Prado, 2003:55).

Situada em frente a Buenos Aires, Colônia mercantil e simbolicamente mostrava aos espanhóis que ‘os portugueses também estavam ali’, significando, entre outras coisas, a negligência da bandeira lusitana para com o Tratado de Tordesilhas. Servindo como entreposto para o couro produzido nas áreas de Pampa e de Chaco, favorecia, principalmente, o escoamento do contrabando de ouro e de prata retirados das minas de Potosí, atual Bolívia. À medida que o Rio de Janeiro ganhava importância, os comerciantes brasileiros – cariocas, sobretudo – passaram a comandar o comércio na região.

O Brasil também provia aguardente, açúcar, víveres diversos e, especialmente, escravos para a parte inferior do império hispânico, relativamente abandonada se comparada com as ilhas do Caribe, México e Peru/Equador. Assim sendo, essa região marginalizada pela Coroa espanhola reproduziu, guardadas as especificidades locais e temporais, os conflitos fronteiriços existentes na Península Ibérica entre Portugal e Espanha. Até mesmo a figura do pagão foi construída, tal qual fora o mouro e o judeu em tempos antanhos na Europa: aqui era o indígena quem precisava ser convertido à fé cristã, portanto, encarnava o Outro por excelência, alteridade essa tão importante à afirmação das identidades étnicas e nacionais dos colonizadores brancos e católicos. Diante disso, por volta de 1740, a Colônia do Sacramento viveu grande crescimento populacional, urbano e militar.

De fato, essa cidade porto se torna, então, o epicentro de uma vasta região que ia das bordas da Cordilheira dos Andes até praticamente a província de São Paulo, sendo povoada por mercadores, camponeses, escravos africanos, indígenas e burocratas. Essa situação desencadeou mudanças profundas em Buenos Aires, locus onde, até 1700, as relações entre portugueses e espanhóis haviam sido interessantes para ambos os lados. Prova disso é que muito do comércio escravista dirigido para a Argentina, Bolívia e sul do Peru estava nas mãos lusitanas. A descoberta desses fatos, segundo Prado (2003), relativiza o peso dos conflitos e querelas entre os dois povos colonizadores na bacia do Rio da Prata.

Toda essa dinâmica resultou naquilo que Jumar (apud Prado, 2003) nomeou como ‘o complexo portuário do Rio da Prata’, fenômeno que permitia os recíprocos contatos sociais e vínculos econômicos entre súditos portugueses e hispânicos, não obstante os empecilhos jurídicos. Tais elos, que envolviam os portos de Buenos Aires e Sacramento posteriormente agregando também Montevidéu, foram bastante intensos, sendo o comércio ilícito parte do cotidiano da grande maioria dos habitantes. Todavia, foi apenas a partir de 1716 que a Colônia do Sacramento adquiriu seu pleno funcionamento comercial, para isso contribuindo enormemente a presença britânica.

Concernente ao interior do império hispânico (Paraguai, norte da Argentina, sul do Chile), era especialmente a partir de Sacramento que chegavam as mercadorias vindas do Rio de Janeiro, Salvador e Europa. Diante disso, a elite político-econômica portenha procurou dominar a produção pecuária na campanha, a fim de que a colonização portuguesa não se internalizasse na região, tamanha sua força no litoral. Como se tratava de um espaço fronteiriço ambíguo, eles mesmos, e não os espanhóis, trataram de não deixar que os portugueses continuassem seu domínio ao longo do Rio da Prata, até Assunção, por exemplo. Logo, (...) o comércio surge como um fator central, elemento dinamizador da região e que envolvia uma gama variada de agentes sociais (Prado, 2003:57).

Esse temor possuía sentido, posto que muitas fazendas de gado bovino e ovino, onde hoje se situa o Uruguai, eram de propriedade de lusos-brasileiros, sendo que ali era comum a escravidão negra. O mesmo autor ainda destaca que foi entre 1716 e 1753 que Sacramento conheceu seu ápice enquanto pólo comercial, urbano e populacional. Nesse contexto, autoridades, contrabandistas e negociantes não tinham identidades definidas; os governantes precisavam do apoio da elite local para impor a autoridade que emanava da Metrópole, delineando-se, assim, alianças entre a burocracia e os homens de negócio – lícitos e ilícitos.

Esse fenômeno evidenciou o poder dos cargos burocráticos na estruturação das redes sócio-econômicas locais. Isso quer dizer que as interações estabelecidas entre os ‘patriarcas’ regionais e os de Buenos Aires com os homens de confiança foi fato chave no sistema político platino que, ao contrário, não funcionaria. Contudo, essa elite não era una, estando dividida em diversas facções. O contrabando era especialmente controlado pelos brasileiros e pelos ingleses, ao passo que o tráfico de escravos estava sob o jugo dos portugueses. Os conflitos começaram a se propagar no mandato do governador Antônio Pedro de Vasconcellos (1722 e 1749). Esse protegia de maneira quase declarada os comerciantes ingleses.

Vasconcellos aportara em Colônia em 1722 investido do poder real para que empreendesse o núcleo populacional, incentivasse o povoamento e diminuísse as deserções. O fato de ter como genro um inglês, John Burrish, mostrava como o povo britânico era presença marcante nos portos do Rio da Prata (Prado, 2003). Na verdade ele, e também os governadores de Buenos Aires, não podiam ter interesses distintos dos da elite local, porque se assim fosse não permaneciam muito tempo no poder. Finalmente, a situação de Sacramento torna-se muito complicada quando é sitiada pelos castelhanos em 1737. Com o Tratado de Madrid e as decisões pombalinas, Vasconcellos é substituído e toda essa trama desarticula-se.

Os primórdios da escravidão para a Bacia do Ria da Prata

O objetivo desse tópico é contextualizar o antes e o depois do século XVIII para que o texto tenha maior fluidez e que os fatos referentes aos setecentos não fiquem desconectados, visto que são desdobramentos do que aconteceu precedentemente e tiveram fortes conseqüências no que se passou depois naquele espaço sócio-geográfico. Assim, mesmo o foco desse trabalho continuar sendo os anos 1700 porque é o período que coincide com o ápice da entrada de escravos naquela região, aspectos da escravidão negra nos séculos XVII e XIX são trazidos, ainda que de forma resumida.

Segundo Liboreiro (2001), a afirmação ‘os negros na Argentina’ é motivo de estranheza e discussão em qualquer grupo que se dê, seja na Academia ou entre amigos, por exemplo. Isso porque (...) la sociedade en líneas generales afirma o cree que no hay individuos de origen africano en esa parte de América y que estamos en un país cuya población posee un raigambre netamente europea (Liboreiro, 2001:7). Em apoio a essa crença concorrem os periódicos, a mídia e as estatísticas oficiais. Do ponto de vista do imaginário social, a formação do povo argentino é fruto das grandes correntes imigratórias do final do século XIX e princípios do XX, formadas especialmente por espanhóis e italianos.

No entanto, mesmo em referência a esta época, nas crônicas das Forças Armadas, particularmente do Exército, há menção aos aguerridos batalhões de ‘pardos e morenos’; portanto, uma pesquisa mais detalhada desvela que existiu considerável população negra nesse país, chegando a dezenas de milhares de pessoas, mas que, atualmente, apresenta números irrisórios. As razões para a extinção desse povo estariam, para os poucos que admitem que existiram africanos na Argentina, esclarecidas pelos seguintes fatos:

  1. A participação deles, mormente dos homens, na guerra de Independência, nos conflitos civis, na guerra da Tríplice Aliança e na do Paraguai;
  2. As várias epidemias que ocorreram no país, sarampo, cólera, febre amarela, principalmente nas zonas úmidas de Buenos Aires e da Bacia do Rio da Prata;
  3. A união das mulheres negras (em número bem maior em relação aos homens de cor), como forma de ascensão social durante o século XIX e começo do XX, com italianos, espanhóis e outros imigrantes que chegavam solteiros à província de Buenos Aires;

 

Embora esses fatos sejam pertinentes, não foram, como se crê, capazes de extinguir completamente os negros da Argentina nem, mormente, capazes de fazer com que legados biológicos e culturais africanos não sejam mais encontrados no povo argentino. Afinal, (...) ¿a qué origen atribuirían las pieles cobrizas, oscuras, las narices anchas, los cabellos ondulados, las caderas generosas? Nombramos eses rasgos sólo por referirnos a los aspectos físicos más visibles, y no ya a los culturales (Liboreiro, 2001:8). Nesse sentido, um argentino famoso que, em função do seu biótipo denunciaria tal mescla africana seria o Maradona, que é oriundo das classes e bairros que, posteriormente no texto, mostrar-se-ão como redutos dos descendentes de negros em Buenos Aires.

Assim, além de imigrantes brasileiros, cubanos e venezuelanos negros que hoje vivem em Buenos Aires, não obstante em número reduzido, ainda existem ‘pardos’ argentinos de quatro gerações que se distribuem a partir de duas origens: 1- os que descendem de antigos escravos, chegados especialmente no século XVIII e 2- os descendentes de imigrantes cabo-verdianos, que chegaram em Buenos Aires como ‘portugueses’ no início do século XX. O alvo dessa imigração era o Brasil, todavia, como tal país vivia sob a égide do branqueamento de forma mais ostensiva que outros países latino-americanos, pois possuía a maior população negra das Américas, impedia a entrada de estrangeiros africanos, com exceção de argelinos, marroquinos e tunisianos, povos ‘brancos’ de origem árabe (Ibañez, 1961).

Os fenômenos ligados aos âmbitos demográfico e sociocultural que levaram Liboreiro (2001) a empreender esse estudo foram: 1- a considerável quantidade de palavras de origem africana existentes no espanhol falado em Buenos Aires que, nas zonas portuárias industriais da área sul (onde se concentram os negros de ambas as origens relatadas), tem a denominação de ‘lunfardo’ – conjunto lingüístico que mistura dialetos italianos, catalão, basco, palavras indígenas, africanas e de outros povos que passavam pelos portos dos Bairros La Boca e Barracas2. 2- A presença de danças e cânticos de origem africana, como a payada, no interior do país e do Candombé, na fronteira com o Uruguai. Além desses 3- a milonga, que deu origem ao tango, tem vários traços africanos, como o fato de ser mais rápida que aquele. A própria palavra ‘tango’, conforme a autora, advém de tambo, como eram conhecidos genericamente pela elite branca os bailes negros. Assim sendo,

(...) traté de conocer la realidad de los negros en Argentina, desde su llegada en tiempos coloniales, y en los siglos XIX y XX. (...) Llegué a hipótesis sobre la agrafia acerca de los negros en la Historia argentina. No debemos olvidar que ellos conformaron una inmigración forzada que para 1776 eran el 42% de la población del Tucumán en el noroeste argentino (Liboreiro, 2001:11).

Séculos XVI e XVII

A entrada de negros na Argentina e no Uruguai ainda apresentava números tímidos. Não havia navios negreiros aportando em Sacramento ou Buenos Aires, mas escravos que vinham com os proprietários, em comitivas governamentais ou juntamente com outros ‘produtos’ em navios mercantes comuns. De acordo com Liboreiro (2001), já com o conquistador Pedro de Mendoza, em 1536, vieram negros para todo tipo de serviço, inclusive como soldados para combater outro povo oprimido: os indígenas do litoral platino. A autora destaca que esse fato é bastante significativo porque no século XVIII não eram raros indígenas aculturados proprietários de minas que possuíam escravos negros em suas terras no noroeste do país e no sul da Bolívia.

No final do século XVII a escravidão se converte em grande negócio em praticamente toda a América, com exceção do extremo sul (Patagônia) e Canadá. Nesse momento, massas de negros chegavam à região do Prata, alguns vindos diretamente da África, outros vindos como contrabando do Brasil, através do comércio com paulistas e fluminenses. A historiadora calcula que por volta de duzentos mil escravos chegaram a partir desse período, sendo encaminhados para: 1- minas do norte da Argentina; 2- serviços domésticos e caseiros em centros urbanos como Buenos Aires, Santiago, Montevidéu, Assunção e, mais raramente, 3- para o trabalho agrícola nas províncias fronteiriças com o Brasil e Uruguai.

Esses dois últimos tipos de escravidão – nos serviços privados e na agropecuária – foram mais comuns no Uruguai, que até o presente possui considerável população negra – pardos e pretos – concentrados, mormente, nos bairros mais pobres da parte antiga de Montevidéu. Seja para a Argentina ou para o Uruguai, o tráfico negreiro passava por três pontos-chave, a saber: uma caravela saía da Europa com mercadorias diversas com destino aos entrepostos do litoral africano. Ali elas eram trocadas por negros que então eram trazidos à América. Aqui chegando, eram compradas especiarias e toda sorte de produtos ‘tropicais’, cujo pagamento era feito com esses seres humanos coisificados.

Os portos que a coroa espanhola autorizava para tal comércio eram somente aqueles localizados nas zonas tropicais – Peru, Venezuela, Caribe – assim sendo, a escravidão no Cone Sul do continente americano foi feita basicamente na ilegalidade. Considerando-se que quanto mais distante dos centros negreiros da África – Nigéria, Moçambique e Angola – mais caro ficava tal negócio, era difícil que o norte do Chile e sul da Bolívia recebessem negros pela via ‘autorizada’, isto é, pelo Canal do Panamá, portanto, a compra de peças brasileiras vindas pelo interior do continente foi importante solução. Além disso, os portugueses foram os principais fornecedores de cativos chegados diretamente da África, posto que Angola, possessão lusitana, era a região africana mais próxima da desembocadura do Rio da Prata.

Para todo esse processo muito facilitou a instalação de uma base portuguesa na Bacia do Rio da Prata, a já citada Colônia do Sacramento. Diante disso, (...) para 1620 se instaló en Buenos Aires lo que se dio en llamar el ‘contrabando ejemplar’ del cual participaron autoridades españolas y (...) algunos clérigos también (Liboreiro, 2001:15). Como é de conhecimento, a viagem não era nada cômoda, muito pelo contrário, muitas vidas se perdiam em função das degradantes condições de higiene e também psicológicas da travessia. Os negros viajavam nos porões das embarcações, tendo que fazer suas necessidades fisiológicas em buracos na madeira que davam diretamente no mar. Ficavam todo o tempo praticamente sem ver a luz do sol ou sentir qualquer brisa.

O mal-estar causado por essa situação era denominado pelos negros por um termo que hoje faz parte tanto do espanhol popular de Buenos Aires (lunfardo)3 quanto do português brasileiro: sirigonza e geringonça, respectivamente. Apenas no primeiro contexto possui a acepção original de enjôo, sendo que no Brasil o vocábulo significa engenhoca, coisa malfeita ou desconhecida. Porém, o que mais afetava os futuros escravos era o banzo, palavra essa que faz parte somente do português brasileiro: definhamento progressivo resultante de melancolia e saudade extrema da terra natal.

Enfim, nesse período o principal fator a ser destacado é que toda essa maquinaria escravista era feita na clandestinidade, pois tal comércio somente era autorizado pela Espanha nas zonas de plantation (Colômbia, Venezuela, Caribe) e mineradoras (Peru e México). Em função da grande demanda por escravos também na parte sul da América do Sul, Buenos Aires se viu com algumas concessões, como cotas de importação de negros por ano, porém, os abusos das autoridades portenhas fez com que qualquer comércio negreiro ficasse terminantemente proibido entre 1603 e 1615. Dessa forma, entraram pelos portos de Buenos Aires número bem maiores do que se imagina, pois como o tráfico não pagava impostos naquelas paragens, não havia uma contabilidade dessas negociações.

A escravidão nos Setecentos

Já nesse século a escravidão negra em Buenos Aires tomou tamanha proporção que uma zona da cidade foi preparada especialmente para recebê-los e acomodá-los. Assim, foram construídas barracas (similares aos barracões no Brasil, daí a simbologia pejorativa desse vocábulo para designar as casas dos moradores das atuais favelas brasileiras) junto ao rio Riachuelo, um afluente do Rio da Prata. Isso impedia que seu ‘odores’ e tambores chegassem até a população ‘civilizada’ de Buenos Aires. Eram considerados selvagens e perigosos e por essa época Buenos Aires já vinha recebendo certo volume de europeus – alguns poucos imigrantes e, sobretudo, comerciantes ingleses, escoceses, holandeses, franceses e funcionários públicos espanhóis.

Os traficantes, em sua maioria portugueses e cristão-novos experientes com as baixas de negros no Brasil em razão da nostalgia, permitiam e até incitavam que praticassem danças e cânticos ancestrais para afastar-lhes do banzo, diminuindo-se assim a margem de prejuízo (Liboreiro, 2001). Em 1701/02, quando a Real Companhia Francesa da Guiné ganhou a franquia para a importação de escravos para Buenos Aires, passou a alojá-los num grande galpão no bairro San Telmo, nas esquinas das atuais ruas Paseo Colón e Chile. Ulteriormente foi utilizado um abrigo maior onde hoje está construído o Ministerio de Relaciones Exteriores de La Nación. Os escravos tinham como destino as minas do oeste bem como o porto de Valparaíso no Chile, a partir do qual eram enviados para o Peru, pois o contrabando fazia os preços das peças ficar abaixo do preço oficial, que chegava pelo Canal do Panamá.

Outro elemento de alta mortalidade entre os escravos foi o contato com enfermidades desconhecidas na África, doenças essas tanto tropicais, já existentes entre os indígenas que possuíam relativa imunidade, quanto moléstias relativas ao frio e à sexualidade, trazidas pelos europeus. Assim, o Vice-Rei do Peru, Marques de Ávila, assinalava uma terrível epidemia de varicela em 1719 como a principal causa de extermínio de populações indígenas nas zonas costeiras em função do contato com os escravos que, naquele momento, eram introduzidos em massa na área (Alcázar, 2001). Um gene presente em pequena parcela da população boliviana atual, mormente na parte sul do país, aponta para a considerável escravidão que existiu na região. Tal gene é responsável pela anemia falciforme, cujos números chamaram a atenção do médico para a miscigenação ali que houve entre escravos, indígenas e espanhóis4.

Nas condições ambientais da África, esse gene geralmente não se manifesta, ficando o indivíduo apenas como seu portador. No entanto, em alturas acima de 3.500 metros, baixa umidade do ar e frio intenso, se ativa com intensidade. Tais condições são as típicas da região andina, incluindo Potosí, onde o investigador detectou maior ocorrência dessa enfermidade, deduzindo daí que houve ampla escravidão africana nessa zona e, portanto, de um estudo médico-etiológico passou ao estudo historiográfico sobre a escravidão no Chile, Bolívia e norte da Argentina. Partindo da Medicina, ele admoesta que este trabajo de interpretación histórica trata de explicar que esta enfermedad fue una causa de gran mortalidad en sujetos de raza negra, conducidos hacia la altitud, en los primeros tiempos de la colonia (Alcázar, 2001:s/d). Ele descobriu que, pressionada pela Igreja Católica (interessada em angariar fiéis), a Coroa Espanhola extinguiu o cativeiro de nativos na mineração, o que exigiu importação de negros para as tarefas nas lavras andinas.

Além de Buenos Aires, outros pontos de entrada de negros para a Bolívia foram Callao no Peru e Arica no Chile. De acordo com o levantamento de Alcázar (2001), os negros conduzidos aos Andes e Punas morriam jovens, a média de idade era de apenas 20 anos, em razão das condições sociais da escravidão e das biológicas acima discorridas. Ele revela que, nas classes altas de La Paz, Santa Cruz de La Sierra e Sucre é considerável o índice de ‘pardos’ entre seus membros, frutos da mistura, no século XVIII, entre senhores brancos e escravas negras, muitas tomadas como esposas em face da ausência de espanholas naquele período. Em 1797 já existiam muitos ‘zambos’, miscigenados entre negros e índios, nas regiões das florestas bolivianas. Assim, em 1719, na área mineradora de Potosí os negros – tanto escravos quanto mestiços livres (pardos e zambos) – formavam 4,56% da população.

No que respeita ao contexto portenho, de 1706 a 1712 os franceses levavam seus escravos para barracas instaladas numa área onde agora é o Parque Lezama e o Museu Histórico Nacional. Após o Tratado de Utrecht, em 1713, os britânicos da empresa South Sea Company adquiriram o direito de comerciar negros para Buenos Aires. Em conformidade com os dados levantados por Liboreiro (2001), eles introduziram cerca de 20.000 negros em Buenos Aires até 1730. Depois de 1740 esse comércio nefando foi colocado definitivamente, ao menos em sua versão legal, nas mãos de comerciantes espanhóis e argentinos, tamanha era a demanda de escravos para as minas do interior do continente. O governo local então construiu um alojamento para negros na vizinha cidade de Quilmes, hoje área industrial e operária da parte sul de Buenos Aires.

Quando adentravam tais estabelecimentos, sejam de propriedade inglesa, francesa ou espanhola, os negros passavam pelas mesmas inspeções humilhantes: se lhes verificavam dentes, todo o corpo, genitais e olhos. Posteriormente, quando eram comprados, eram ‘carimbados’ como mulas com ferro em brasa com as iniciais do proprietário antes de serem entregues. Liboreiro (2001) coloca que essa etapa demorava cerca de dois ou três meses. Depois disso grande parte viajava para as minas de Potosí (região onde há um vilarejo com o sugestivo nome de Río Mulatos)5, Mendoza, norte do Chile, Salta e Tucumán. As mortes eram muito freqüentes porque era um clima totalmente diverso daquele da África (quente, úmido e plano), pois as regiões andinas são secas, altas, frias no inverno e quentes no verão. Como exemplo ela diz:

(...) en mayo de 1731 salieron 244 esclavos negros (varones, mujeres y niños) camino al oeste; llegaron a Santiago de Chile el 24 de octubre de ese año y habían muerto 44 personas en el camino. Esto último estaba a cargo de la gente local que tenía su propia parte en el negocio y que actuaba de intermediario entre el tratante naviero y el comprador final (Liboreiro, 2001:17).

Paralelamente, a igreja se opunha ao tráfico negreiro, mas não severamente, com receio de desagradar a burguesia em franca ascensão. Em 1639 a Bula do Papa Urbano VIII condenava essa prática. O mesmo aconteceu em 1741, sob o papado de Bento XIV, que reprovou essa forma de privação da liberdade humana. No entanto, essas preocupações não passaram para o plano efetivo das paróquias regionais, nem se tornaram programas específicos de pastoral para os negros como os que existiram direcionados particularmente para os indígenas. Em Buenos Aires a evangelização ficou a cargo do clero de Santo Inácio de Loyola, que então aprendeu o quimbundo, principal língua falada pelos escravos chegados de Angola, e o português, para facilitar a lida com os escravos que vinham do Rio Grande do Sul e de outras partes do Brasil. A historiadora esclarece que

Entre 1660 y 1680 fue el jesuita Lope de Castilla quien se dedicó con otros, a llegarse a las barracas junto al río [Riachuelo] para aliviar los dolores del ‘banzo’ y tratar de enseñarles la fe en Jesús Cristo. (...) En Córdoba, como en Buenos Aires, los jesuitas habían aprendido los idiomas del África occidental y, para la Catequesis, reunían a los esclavos en las plazas los domingos (Liboreiro, 2001:18).

Comparado com o que houve em outras regiões escravistas, como o sul dos Estados Unidos ou o nordeste do Brasil, em geral a escravidão na bacia do Rio da Prata não foi tão cruel, ou seja, não são conhecidos casos de senhores prepotentes, senhoras ciumentas ou trabalho excessivo que conduzisse à morte. A própria prática do açoite em praça pública, com o escravo amarrado ao emblemático pelourinho, não foi usual nessas paragens (Sanchez y Moreno, 1968). Outro fato digno de observação é que os escravos eram freqüentemente utilizados nas ordens religiosas para trabalhos braçais, porém essas faziam questão de vender famílias completas sempre que possível, pois assim pensavam que a faina desses indivíduos seria mais humanitária.

Em terras argentinas e uruguaias os santos atribuídos aos negros no processo de evangelização foram São Benedito de Palermo, ex-escravo romano de origem etíope, São Baltazar e, tal qual no Brasil, Nossa Senhora do Rosário, nomeada em Córdoba de Nuestra Señora de Los Negros y Mulatos, ou então La Virgen Mulata. Um outro fenômeno social importante nesse século e que começou somente como coletividade religiosa foram as irmandades que, rapidamente, passaram a desempenhar outras necessidades, tais como levantar fundos para comprar a liberdade de um escravo que fora rei em sua terra natal ou adquirir terrenos para a construção de capelas e cemitérios próprios.

As confrarias, além de terem a função religiosa, a funerária e as atividades mortuárias em geral, passaram a desempenhar o papel de centros de recreação, já que em Buenos Aires havia permissão para que os negros se distraíssem apenas aos domingos e dias santos. Todavia, na calada da noite se reuniam para cantar músicas em dialeto africano e para tocar tambor, sendo que tais festas eram conhecidas como fantambos, daí as palavras fandango e tango, que hoje nomeiam ritmos musicais do Rio Grande do Sul e de Buenos Aires, respectivamente. Embora tenham sido bem mais raras na Argentina que no Brasil, as fugas de escravos também deram origem a agrupamentos nas matas argentinas. Quando construídas nas regiões ribeirinhas eram chamados de palanques (feitos nos alagadiços inacessíveis do delta do Rio Tigre, zona desabitada do norte de Buenos Aires); nas matas, eram chamados de quilombos.

Diante disso, Correa (2004) é categórico ao sustentar que (...) origen olvidado, ignorado o intencionalmente ocultado por académicos e intelectuales, el tango argentino tuvo por cuna el ámbito físico y cultural de la africanía de nuestra portuaria geografía (2004:s/d). Segundo o autor, o Archivo General de La Nación, financiado pela UNESCO, realizou um abrangente trabalho de recuperação e digitalização de documentos e textos sobre a escravidão na zona do Rio da Prata, o que possibilitou localizar o nascimento dessa dança e música como produto cultural afro-portenho. Ele ainda comenta que a palavra tango era ouvida nessa região desde o período colonial quinhentista, e traz outra possível origem para o termo: talvez derive de Sangó (Xangô no Brasil), divindade que, na cultura nagô, preside os trovões e atabaques.

Não obstante sejam menos confiáveis que os números existentes no Brasil, posto que a historiografia argentina não se incomodou em preservar esses dados, as estatísticas referentes à entrada das ‘peças de ébano’ no país mostram que o século XVIII foi o auge da importação, tendo chegado a Buenos Aires, entre 1710 e 1730, cerca de 10.000 indivíduos, o que fez com que em Tucumán 42% da população fosse negra por volta de 1778. Em Santiago del Estero chegou a 54%. Conforme Correa (2004), em 1774 o governador Domingo Ortiz de Rosas solicitou um censo superficial sobre a população de Buenos Aires, onde se descobriu que negros e mulatos representavam 14,1% da população. Em 1778, em Buenos Aires tais cifras giravam em torno de 30%, permanecendo estáveis até meados de 1810, quando tem início a chegada de grandes levas imigratórias da Europa6.

É nessa época também que muitas palavras de origem africana passam a fazer parte dos vocabulários correntes argentino e uruguaio, fenômeno que não se compara ao que se sucedeu no Brasil, contudo é muito significativa a proporção que tomou a participação dessa cultura na vida diária da região. Assim é que batuque, mucama, tamang(c)o, mandinga, candombe, papagayo, bombo, bujía, ma(u)lambo, cafua, matungo, marimba, quilombo fazem parte do falar dos habitantes de Buenos Aires e de Montevidéu. Outro fenômeno social passou a fazer parte do folclore argentino nesse momento histórico: a payada – um tipo de cântico competitivo entre dois homens, usual nas províncias gaúchas fronteiriças ao Brasil e ao Uruguai (Misiones, Corrientes e Entre Ríos). Com relação ao tango a autora destaca que o

(...) candombe, que desde los siglos XVII e XVIII estuvo presente en nuestro territorio, se incorpora a instrumentos musicales como el bandoneón y se traduce en el baile como la milonga, ésta evoluciona y se troca en tango. Tango que significa para los negros danza, fiesta, lugar de baile y que es, luego, baile de arrabal (...), el drama del pobre de las orillas de la ciudad del puerto, que vive su condición de negro, mestizo, zambo o inmigrante (Liboreiro, 2001:32).

Em resumo a autora postula que, tomando-se em consideração a reduzida população branca na bacia do Rio da Prata e a vertiginosa diminuição da população indígena nesse século em razão das doenças e das conquistas espanholas, pode-se deduzir que nesse período a porcentagem de população negra – pretos, mulatos e pardos – na Argentina e no Uruguai chegou aos seus mais altos índices, como por exemplo, a região de Catamarca, que chegou a ter uma cifra de 52% de negros em 1778. No que tange ao emprego de escravos nas forças armadas, já no século XVIII isso era usual, mas eles não participavam de todos os postos, ficando-lhes reservadas a infantaria e a artilharia, justamente as funções que mais matavam e mutilavam. A cavalaria, espaço simbólico mais importante, era exclusiva dos brancos. Muitos afro-descendentes participaram também da independência chilena, nas antológicas batalhas de Chacabuco e Maipú (Sanchez y Moreno, 1968).

Também os negros que foram enviados ao sul da Bolívia, para a região mineira de Potosí, participaram ativamente nas guerras e conflitos de seu país: Guerra Civil de Vicuñas e Vascongados (1622-1625) e as guerrilhas e caudilhos da República, eventos esses que, tal como na Argentina, levaram ao declínio dessa parcela da população nas cifras gerais do país (Rodas, 1977). Porém, fato que não pode ser negado é que, também na Bolívia, o (…) negro fue en gran colonizador del Nuevo Mundo, cultivador de coca en las laderas húmedas de los trópicos, peón en las haciendas de los valles (...), sirviente doméstico en las ciudades, trabajador en los ingenios mineros, acuñador en la Casa de La Moneda de Potosí (Alcázar, 2001:s/d). Fatos históricos esses que hoje são comprovados tanto pelo fenótipo (aparência) quanto pelo genótipo (carga genética) de alguns bolivianos.

Séculos XIX e XX

Doravante, um aspecto fundamental da participação dos negros da história argentina foi a inserção de escravos nas milícias e nos exércitos. Desde fines del siglo XVIII los negros esclavos fueron parte de los ejércitos argentino (Liboreiro, 2001:21). Durante as invasões inglesas, os regimentos de ‘pardos e morenos’ tiveram uma atuação capital. O Cabildo local recompensou os serviços prestados, após a queda dos britânicos, com a liberdade. Tal tendência se fez mais presente em 1813 quando, acompanhando outros países latino-americanos pressionados pela Revolução Industrial, a Argentina cria a Lei do Ventre Livre. A Inglaterra necessitava que houvesse o maior número possível de operários trabalhando nas nascentes fábricas, tanto na América Latina quanto na África, portanto, a escravidão impedia esse desiderato mercantil de ser posto em prática. Mesmo assim,

Las leyes de 1813 solo dieron la futura libertad, al llegar a la adultez, a los nacidos luego del 31 de enero de 1813, no a todos los esclavos de ese momento, como en otras regiones. (...) por sus características de libertad paulatina, encontramos que treinta y cuarenta años después todavía había esclavos en Argentina (Liboreiro, 2001:34).

Nessa situação, os negros libertos por nascimento ou por outros motivos, iam se aglomerando nas cidades. Em Buenos Aires se concentravam em San Telmo, La Boca, Candelária, Barracas e Constitución, essas duas zonas já tradicionais de ocupação negra desde os tempos em que começaram a chegar e a ser ‘depositados’ em barracões ao longo do Riachuelo. Em Montevidéu se fixavam nos bairros Ciudad Vieja e Barrio Sur. Conforme a investigadora, durante la guerra de Independencia los negros formaron la mayoría de los regimientos de infantería de los ejércitos patriotas. (...) a los morenos se les prometía la libertad a cambio de cinco años de servicio en las milicias (Liboreiro, 2001:21). Também é digno de registro que um documento oficial de 1812 suprimia a escravidão africana no país, no entanto, não foi cumprido corretamente nos 30 anos subsequentes, mas fez cair drasticamente a entrada de escravos no país.

O General San Martín os intimidava dizendo que, se fossem derrotados pelos espanhóis, voltariam a ser escravos e seriam vendidos em troca de açúcar. Nos exércitos andinos formavam os batalhões 7 e 8, e combatiam contra os nativos lutando em locais como Chacabuco e Maipú, na fronteira chilena. Esse último batalhão também era conhecido como o Batalhão dos Negros Libertos, tendo tomado parte da retomada de Montevidéu. Posteriormente, em 1833, (...) lo vemos siguiendo a Rosas en sus campañas en el sur contra los indios pampas (...) y los vemos luchando también en la guerra del Paraguay (Liboreiro, 2001:22). Por essa época, a primeira geração de nascidos livres já chegava à idade adulta, e a miscigenação com os imigrantes que aportavam em Buenos Aires era cada vez mais intensa.

No que tange ao Paraguai, outro país platino, é errôneo supor que não teve escravidão negra; desconstruindo alguns mitos relativos à Guerra do Paraguai, Doratiotto apresenta um quadro bem diverso do que se pressupõe, presentemente no Brasil, sobre o Paraguai quando eclodiu a referida contenda (1864-1970), pressuposição essa que debita a culpa pela Guerra à expansão imperialista britânica: a interpretação imperialista apresentava a sociedade paraguaia do pré-guerra como avançada. (...) nada mais distante da realidade. O Paraguai tinha uma economia agrícola, atrasada; nela havia escravidão africana, embora diminuta (2004:18). Outras fontes, como por exemplo, Pomer (1980), demonstram que foi comum a fuga de negros escravizados no Mato Grosso para o país vizinho.

O negro que vivia em Buenos Aires e em Montevidéu geralmente era pobre, e como tal, se unia a seus pares, sejam eles descendentes de indígenas, italianos ou espanhóis. Nessa época uma epidemia de febre amarela, aliada a um inverno rigoroso, varreu a população ribeirinha de Buenos Aires, população essa que freqüentemente era acometida de outras pestes, como cólera, tuberculose e varíola. No plano biológico, o sistema imunológico dos afro-argentinos estava menos preparado para resistir às doenças típicas do frio, já que seus antepassados viveram por milênios em clima equatorial na África. Do ponto de vista social, eram alijados dos trabalhos urbanos em proveito dos imigrantes que chegavam ao Novo Mundo. Esses fatores congregados propiciaram para que, em meados do século XX, praticamente não mais existissem portenhos de cor preta stritu sensu.

Essa época coincidiu com o avanço do positivismo e das idéias eugenistas na ciência; em Buenos Aires, cidade que em tudo buscava ser a mais ‘civilizada’, européia e ‘evoluída’ da América Latina (desejo esse também almejado pelo Rio de Janeiro, onde os ideais evolucionistas também grassavam), os negros – mulatos e mestiços – eram oficialmente segregados em escolas para ‘niños’ pobres – o pretexto era a questão de classe – e terminantemente proibidos de irem a seções de teatros, óperas e outros espetáculos públicos das grandes companhias européias (Liboreiro, 2001). Dessa forma, o caráter classista da sociedade argentina de então oculta um forte racismo subjacente. Nesse contexto, só os italianos já representavam 32% da população de Buenos Aires. Somados aos outros imigrantes, como espanhóis, judeus e árabes em geral, os estrangeiros chegavam a 60% da população – apenas Nova York e São Paulo viveram fenômeno semelhante.

Desse modo, hoje se mantêm em anonimato pequenos núcleos de descendentes de cabo-verdianos nos bairros meridionais de Buenos Aires, pardos em sua maioria, em função de que seus descendentes na África ancestral já vieram mesclados com o português, o que foi complementado pela miscigenação com italianos e imigrantes de outras procedências instalados na zona portuária. Outras pessoas que atualmente explicitam a origem africana não se constituem em grupo, mas se espalhavam pelas cidades do Noroeste argentino: são os zambos – mestiços entre índios e negros. Mesmo para um turista que esteja de passagem pelo interior da Argentina é fácil vê-los, pois têm o cabelo levemente ondulado, muito negro, olhos grandes e redondos e, principalmente, pele muito escura7.

Os zambos são comuns em cidades como Mendoza, Tucumán, Salta, Santiago del Estero, San Juan e La Rioja, regiões mineradoras no passado. É interessante ouvir os comentários argentinos quando os estrangeiros perguntam sobre tais ‘morenos’; a resposta usual é dizer que são descendentes de indígenas que foram, desde o nascimento, expostos ao intenso sol das zonas áridas. No entanto, sendo muito escuros para serem apenas de origem indígena, fica a pergunta: por que só alguns descendentes de nativos ‘escurecem’ sob o sol desértico? Tal ‘desculpa’ racista nos faz lembrar aquela brasileira, que atribui a morenice ao sol tropical. No Chile se encontram em Antofagasta, na entrada do deserto do Atacama (fronteira com a Bolívia e com o Peru). No Uruguai se concentram basicamente na cidade de Montevidéu, nos bairros da zona costeira sul e da zona portuária norte. Nesse último país, ainda que raros, ainda são encontradas pessoas ditas ‘pretas’, porém, a grande maioria dos negros uruguaios também é formada de pardos e mulatos.

Outro dado importante trazido por Liboreiro (2001) é a estreita ligação entre aumento da taxa de mortalidade geral e de mortalidade infantil com a piora das condições de vida dos negros após o fim da escravatura no país. A miséria a que foram submetidos nas periferias das grandes cidades, aliada ao intenso frio naquela zona, aumentou consideravelmente as mortes entre os afro-portenhos. Após uma ampla epidemia de varíola, (...) las diferencias entre nacidos y muertos, muestran como, dos años después, 1831, la población blanca se ha repuesto de la pérdida (Liboreiro, 2001:60). O mesmo se passou quando uma onda de febre amarela devastou as zonas ribeirinhas de Buenos Aires (San Telmo, Barracas e Montserrat – los barrios del tambor), fazendo com que as camadas mais ricas se transladassem definitivamente para a zona norte da cidade.

Todo esse processo fez com que em 1822, segundo censo de Buenaventura Arzac, o número de indivíduos de origem africana em Buenos Aires caíra para 24%, embora os números absolutos tenham aumentado um pouco. Isso mostra que, no percentual geral, os grupos imigratórios europeus estavam fazendo com que as proporções de negros e de indígenas decrescessem ano a ano. No que respeita ao tango, também foi ‘alterado’ em sua africanidade pelo contato com outros ritmos trazidos pelos marinheiros e prostitutas, mas principalmente pelos estrangeiros que iam viver nos cortiços dos bairros meridionais. Assim, a milonga, cuja sonoridade se parece com o termo brasileiro ‘delonga’, que significa ‘conversa fiada’, foi sendo incrementada com a Habanera trazida do Caribe e pelas danças de cabaré de Marselha e Barcelona.

Considerações Finais

Viu-se precedentemente como a Argentina passou, de uma país com considerável população negra no século XVIII, a ser, nos documentos oficiais, no imaginário coletivo e na mídia, uma nação sem negros e com alguns índios. Esse processo de branqueamento ideal foi concluído no princípio do século XX, quando uma gama de pessoas pardas, morenas, mulatas e mestiças em geral foi vagamente nomeada, nos documentos oficiais do governo, de ‘trigueña’. Los números, entonces, a partir de esta época, diluyen con este término los diferentes colores de la piel (Liboreiro, 2001:61). Destarte, não obstante que os números daí em diante se tornem mínimos em relação às porcentagens que existiram antes, o principal elemento a demover a idéia de uma Argentina com sangue negro é o discurso oficial, isto é, construiu-se, nesse momento, que negros são os outros – uruguaios, brasileiros, etc. – não os argentinos, apesar de que, tomando-se o exemplo citado, alguém com as mesmas características físicas de um Maradona, caminhando em Buenos Aires, seria classificado de pardo caso fosse brasileiro ou uruguaio.

La presencia negra se halla en la sangre y en la piel de muchos de nosotros que, sabiéndolo o no, llevamos en nuestro genes algún antecendente del mestizaje de esta raza. Es que zacaso no vemos en nuestro pueblo caracteres propios de los negros? (Liboreiro, 2001:62).

Algumas discussões atuais que se desencadearam a partir do fato de um jogador argentino chamar um jogador brasileiro de ‘macaquito’, mas que atende pela alcunha de ‘Grafite’ são pertinentes acerca do que acabou de ser exposto historicamente. Primeiro: alguns textos jornalísticos, ao trazerem alguns aspectos da existência de escravidão no passado argentino davam a entender que, caso aquele país não tivesse tido o elemento negro em sua composição étnica, então, teria o ‘direito’ de ser racista. A mensagem implícita era que o povo coreano, por exemplo, não trazendo ‘sangue negro’ nas veias, poderia, nessa lógica, ser racista.

A discussão não passa pela questão da humanidade, ou seja, que qualquer ser humano deve respeitar e ser respeitado em sua identidade e especificidade étnica (como também de gênero, de orientação sexual, etc.). Em segundo lugar, os brasileiros, ao nomearem seus jogadores negros e mulatos de Grafite (um mineral), Tiziu (uma espécie de pássaro), Kichut (uma marca de chuteira), também não estão sendo racistas? É ampla e aceitável a prática de apelidar os garotos quando entram para o futebol, conforme constatei na pesquisa de Mestrado. Entretanto, os meninos negros são os principais alvos dessa prática, se comparados aos meninos brancos e, especialmente, de classe média. Esses, em caso de homônimos, são chamados pelos seus sobrenomes (são filhos de algo, fidalgos...).

Na Argentina da atualidade o termo ‘cabecita negra’, ainda que seja ligado à questão de classe, revela o forte racismo até hoje existente naquela sociedade. Tal expressão se refere aos imigrantes bolivianos, peruanos, paraguaios e colombianos, além de pessoas do norte do próprio país, que buscam trabalho como domésticas, pedreiros, lixeiros, e toda sorte de lumpen proletariado, nas cidades de Buenos Aires e Santiago. Portanto, o que não conseguiu ser apagado dos tempos primordiais da bacia do Rio da Prata foi rotulado de exótico, estranho, circunscrito à esfera da alteridade em geral, processo começado com (...) los pensadores positivistas liberales del diecinueve y el veinte ante ese grupo de sabiduría extraña y de lejano origen, con creencias ‘atrasadas’, ‘primitivas’ y ‘salvajes’ (Liboreiro, 2001:38).

Por essas e outras razões foi que a autora só pôde contar com dados paroquiais, anotações de batismo, óbitos, casamentos e outras fontes contraditórias, não constantes e fragmentárias da história do negro na bacia do Rio da Prata, mormente na Argentina. Diferentemente do que aconteceu no Brasil e, em menor escala também no Uruguai, (...) no se hallan censos ni estadísticas, no hay escritos históricos o declaraciones públicas que los identifiquen como grupo y que puedan dar pautas de su sentir, actuar y vivir siendo negros en la sociedad argentina (Liboreiro, 2001:44). Desse modo, ela assim sintetiza os remanescentes de negros – pardos e mestiços – no povo argentino em geral:

A los criollos entonces, los vamos a encontrar dispersos y como indivíduos aislados, hijos, nietos o bisnietos de (...) algún antepasado negro que hoy aún se hace presente a pesar de la mestización. (...). los caboverdanos [quase todos descendentes, pois os elementos da primeira geração de imigrantes já faleceram quase todos], en su mayoría, permanecen en las zonas portuarias de la capital. (...) viven en familias, algunas extendidas de origen común – islas de Cabo Verde de colonización portuguesa (...) aunque mestizados y adaptados a nuestro suelo (...). (Liboreiro, 2001:47).

Juntamente com outros indivíduos da classe baixa portuária, como italianos, espanhóis e migrantes do interior do país, os cabo-verdianos, pela tradição ilhoa do país natal, se dedicavam a atividades ligadas à estiva, pesca, marujos, etc., enquanto que as mulheres possuíam fonte de renda através da culinária, serviços de costura e domésticos. Durante as décadas de 1920-30 não conheciam conflitos nem discriminações étnicas. Por volta dos anos 1940, com a ascensão do Peronismo, as indústrias multinacionais começaram a se fixar nessa área, criando um gueto que ia de La Boca até as cidades de Quilmes e Avellaneda, local conhecido como ‘Dock Sur’. Foi aí que começaram a perceber o racismo da cultura nacional, pois tais argentinos – tanto de nascimento como de registro – eram vistos como estrangeiros de passagem pelo país quando tinham que se dirigir ao centro da cidade, onde a origem européia da população era quase absoluta.

Do ponto de vista metodológico, a História, como outros campos de saber, realiza recortes que têm a ver com o momento sócio-histórico de determinada nação; assim sendo, a marginalização de certos fenômenos e atores sociais, bem como a exaltação/mitificação de outros é um processo comum também nesse campo, em função de que seus elaboradores são, antes de intelectuais, seres humanos inseridos em certos valores e tendências culturais. Ao lado dessa questão negra, outra que é ocultada na memória oficial argentina é o retorno de imigrantes para a Europa ou a ida deles para o Brasil após se decepcionarem com a vida na Argentina ou serem repudiados pela população local. Quanto a esse último processo, fora do foco desse texto, ver Azevedo (1982), ao explanar sobre a chegada de muitos desse no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Notas

1 Marco inicial da colonização espanhola na região: 1536, quando Pedro de Mendoza funda Santa Maria del Buen Aire.

2 Sobre a área urbana de Buenos Aires um esclarecimento de cunho geográfico: diferentemente da maioria das cidades brasileiras, as zonas de classe ‘alta’ de Buenos Aires se concentram na zona norte – Palermo, Recoleta, Belgrano, Nuñez. A região portuária e, consequentemente, a que recebeu os imigrantes pobres, fica na zona sul – La Boca, Barracas, Constitución, próximas aos rios Riachuelo e La Plata, por isso sofriam com epidemias e doenças ‘tropicais’.

3 Outras palavras de origem africanas transformadas no contato com o idioma espanhol, típicas do lunfardo são: begue (capricho amoroso), camba (amásio), canguela (notívago), casimba (carteira), fulo (feio), manga (pedir dinheiro), menesunda (dinheiro), tamangos (sapatos), tanga (engano), tungo (cavalo), africar (entregar), banana (excelente), batuque (desordem), bombo (banqueta), cafúa (cárcere), canguela (prostíbulo), catanga (pessoa escura), catinga (mal-cheiro), changa (trabalho temporário), conga (festa), enquilombar (desordenar), fangos (sapatos), fula (mulher sem atrativos), fulana (mulher da vida), guarango (grosseiro), jarangón (festança), jirafa (lanterna), kilombo (arruaça), lunfa (meliante), mangos (pesos), marimba (surra), matungo (cavalo velho), mistongo (humilde), morondonga (ninharia), punga (ladrão), tarumba (louco), timba (diversão), timbo (bota), tongo (trapaça), yunga (floresta densa), zumbarse (drogar-se). Fonte: El Portal del Tango; disponível em www.elportaldeltango.com.br

4 Tal moléstia não acomete os indivíduos por contágio, por ser hereditária, uma modificação na forma das hemácias para que esta corra menos risco de ser parasitada por um tipo de microorganismo transmitido pela picada de um mosquito comum na África tropical. Segundo o autor, la hemoglobina S es una variedad de hemoglobina anómala, (...). Es una variedad privativa de la raza negra. Tiene una alta incidencia (...) hasta un 50% de la población de ése continente [África].

5 Uma ilustração de como o povo negro foi vítima de preconceito onde quer que tenha sido levado como escravo é uma pilhéria narrada por Alcázar (2001), popular na Bolívia: ‘Gallinazo (abutre) não canta nos punas’ (região seca das estepes nos altiplanos), numa referência aos descendentes de escravos – zambos e mulatos – que vivem na zona de floresta tropical, nas fronteiras com o Paraguai e Brasil, mas praticamente inexistem na Cordilheira. Assim, no sistema simbólico andino o condor é associado ao indígena e a águia representa o europeu.

6 Também foi significativo que com esse primeiro passo em direção à globalização que foi o comércio escravista, tenham aportado na América diversas doenças desconhecidas entre os nativos, como a sarna, anemia falciforme, sarampo, caxumba e varicela, enfermidades essas que os africanos já possuíam relativa imunidade. Com os europeus vieram a pneumonia, tuberculose, lepra, gripe e, sobretudo, a sífilis, causa de extermínio de populações inteiras. Para tal nocivo processo de intercâmbio também ‘contribuíram’ os indígenas, posto que a cólera, catapora, dengue, malária e doença de Chagas eram desconhecidas na Europa, Ásia e África.

7 Na classificação popular brasileira seria o purí (regiões Sul e Sudeste) ou cafuzo (regiões Norte e Nordeste).

Referências Bibliográficas

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[*] Marcel de Almeida Freitas. Lic. en Antropología y Sociología por la Universidade Federal de Minas Gerais. Maestría en Psicología Social por la Misma Institución. Doctor Miembro del GECC - Grupo de Estudos em Currículos e Culturas da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.
Profesor Adjunto de la FACSAL - Faculdade Da Cidade De Santa Luzia. Autor do livro: Madonas, meretrizes, amazonas e magas – um estudo dos arquétipos femininos nos mitos da humanidade. Belo Horizonte: Edição do Autor, 2001. Coladorador da revista PSIKEBA – Revista de psicoanálisis y estudios culturales. E-mail del autor: marleoni@yahoo.com.br